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Os significados de vencer


Num texto direcionado a jovens que recentemente concluíram o Ensino Médio e tomaram o rumo da Universidade (especialmente aqueles que conseguiram vagas nas concorridas universidades públicas), a palavra vencer tem um significado extremamente individual. É mais ou menos aquela idéia consagrada de “vencer na vida”: pelo meu esforço pessoal consegui superar as adversidades e conquistar o sucesso. Aliás, está aí outra palavrinha controversa (“sucesso”), mas não é esse nosso assunto.

Em todo caso, vencer costuma ter, em uma sociedade competitiva e excludente como a nossa, um caráter bastante individualista. Entrar numa Universidade é uma espécie de porta de entrada na vida adulta, no mercado de trabalho, etc., e, como tal, uma das dimensões deste vencer.

Esta perspectiva se revela muito pobre e egocêntrica. Até mesmo egoísta. Deixamos de perceber que milhares e milhares de jovens, talvez tão “esforçados”, “capazes” e “competentes” quanto nós, deixaram de vencer simplesmente porque não há lugar para todos. Deixamos ainda de notar que muitos sequer puderam se esforçar por terem sido obrigados a entrar no mundo do trabalho precário (ou da criminalidade) cedo demais, sem ter a menor chance de desenvolver qualquer outra perspectiva de vida.

Que isso, porém, não seja lido como um de balde de água fria sobre aqueles conseguiram atingir parte de seus sonhos e ingressar na Universidade pretendida. A felicidade de vocês é lícita e justa. Trata-se apenas de um chamamento à necessidade de olhar o mundo desde outro ponto de vista. Neste caso, alterar o significado da idéia de vencer.

É hora de perceber que “vencer” pode ter um significado coletivo quando, por exemplo, ao ingressarmos na universidade temos uma preocupação crítica de questionar as autoridades e os poderes constituídos (seja na esfera política, econômica ou cultural) a respeito dos motivos pelos quais a maioria dos jovens brasileiros está excluída do mundo acadêmico. O chamamento é para que rompamos a bolha que nos isola desta realidade injusta para que nossas vitórias de hoje sejam apenas um prelúdio de conquistas que sejam para todos amanhã. Estar na universidade pode ser o primeiro passo para esta mudança de perspectiva – como foi para mim um dia.

Caros pais, alunos, vestibulandos, formandos, formados, amigos e colegas, ao preparar este texto lembrei de um ditado que me disseram ser muito comum nos países da América Andina, que diz mais ou menos o seguinte: “As coisas são como são – injustas – pois desde cedo aprendemos que vencer é somar, acumular, e não dividir”. Que tal adotarmos esta nova atitude diante das coisas, começando com a nossa relação com a escola e com nossas vitórias?

Mestre Osmar Augusto Fick Junior
 

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